Escrevivências multimodais de mulheridades negras no digital: políticas de afeto, estéticas de (re)existência, poéticas de outras Educações
Feminismos Negros; Ciberativismos; Etnocartografia; Escrevivências multimodais.
Esse estudo teve como objetivo mapear, durante os meses de novembro/2024 a fevereiro de 2025, práticas culturais-afetivas-ativistas de três mulheres negras no Instagram em seus diferentes atravessamentos que permeiam idade, transgeneridade, deficiência e neurodivergência, a fim de fantasiar sobre as narrativas contadas-postadas e identificar linhas de fuga imaginativas-educativas de outros mundos e outros Feminismos Negros possíveis. Refletimos tais práticas enquanto ciberativismos que permeiam o campo das micropolíticas; esse campo invisível dos desejos, das sensibilidades e dos afetos que produz modos de subjetividade originais e singulares (Guatarri; Suely Rolnik, 1996), ao mesmo tempo individuais e coletivos, para revolucionar em linhas minoritárias, no sentido deleuziano, o sistema colonial-capitalístico. À luz da interseccionalidade como instrumento teórico-metodológico (Akotirene, 2019), dialogamos com um referencial teórico pautado nos estudos críticos raciais e das tecnologias sociais, pós-coloniais e dos Feminismos Negros, sobretudo a partir de Lelia Gonzalez (2020) e bell hooks (2023a), para discutir mulheridades negras enquanto proposição que caracteriza as diversas concepções do “ser mulher” (Letícia Nascimento, 2021) e que, no contexto contemporâneo de indissociação entre Tecnologia, Comunicação e Educação, são experienciadas em diferentes contextos, no qual se inclui o digital. Tomamos a Etnocartografia (Bittencourt, 2011) como atitude metodológica que se propõe a estar aberta aos encontros e seguir os afetos para acompanhar processos de produção de realidades. Costurando narrativas em contato com os materiais recolhidos e nossos diários de campo, fantasiamos zonas de intensidade que unem Lydia Garcia, mulher negra de 87 anos; Carla Santos, mulher negra com deficiência e Bárbara Bombom, mulher negra trans, na produção do que chamamos de escrevivências multimodais, inspiradas em Conceição Evaristo - narrativas que unem a vivência e a linguagem multimodal possibilitada pelo Instagram para constituir processos identitários e subjetivos, individuais e coletivos, e produzir epistemes plurais sob a ótica da (re)existência para além da resistência. A partir delas, fabulamos processos de autodefinição e autoavaliação (Patricia Hill Collins, 2019), autodeterminação e autorrecuperação (hooks, 2023b) dessas mulheridades negras que constroem os Feminismos Negros a partir de caminhos poéticos, afetivos, artísticos e políticos, produzindo uma educação menor que permeia os cotidianos, emerge pelas brechas, (re)existe por linhas de fuga de mulheres negras que não aceitam mais viver como “Outra/o”, mas como sujeitas inscritas no mundo, autoras de suas próprias realidades, vivenciando, assim, processos de descolonização (Kilomba, 2021).