A dor que ensina: sofrimento subjetivo de docentes em uma escola da rede pública do Distrito Federal
Sofrimento docente. Subjetividade. Subjetividade social. Docência pública. Educação e Saúde.
Este trabalho nasce de inquietações diante do expressivo crescimento do número de docentes com diagnósticos de problemas psicológicos e em situação de afastamento no Brasil. A forma como essa problemática tem sido abordada mostrou-se limitada, evidenciando uma tendência, sustentada por discursos hegemônicos, de compreender o sofrimento docente a partir de explicações simplificadas, marcadas por perspectivas medicalizantes, patologizantes e individualistas. Diante desse cenário, a pesquisa teve como objetivo compreender como se configuram subjetivamente expressões de sofrimento de docentes em uma escola da rede pública de ensino médio e anos finais do Distrito Federal, bem como recursos subjetivos implicados pelos docentes nesse contexto. A pesquisa fundamentou-se na Teoria da Subjetividade em uma perspectiva histórico-cultural, conforme proposta por González Rey, articulando educação, saúde e sofrimento docente a partir de uma compreensão relacional, histórica e socialmente situada dos processos educativos. A partir dessas articulações, problematizou-se o papel do professor no exercício profissional, considerando os tempos e espaços educacionais em que a docência se constitui, bem como a tecnicização do ensino e a crescente precariedade simbólica à qual a docência se encontra submetida. Do ponto de vista epistemológico e metodológico, a pesquisa foi orientada pela Epistemologia Qualitativa, em articulação com a Metodologia Construtivo-Interpretativa, tendo sido realizado um trabalho de campo com duração de cinco meses. Esse percurso envolveu a utilização de diferentes instrumentos de pesquisa em momentos significativos do cotidiano escolar e em projetos desenvolvidos na instituição, contando com a participação de docentes e de outros profissionais da equipe escolar. A dinâmica conversacional e a observação participante constituíram os principais instrumentos utilizados na produção das informações. Os resultados da pesquisa foram organizados em dois eixos temáticos. O primeiro analisa a configuração subjetiva social do sofrimento docente no exercício profissional, atravessada por processos como a fragilização dos vínculos, a medicalização, a violência escolar, a vulnerabilidade social e a erosão das instâncias coletivas na docência pública, bem como por questões relacionadas à gestão escolar, que marcaram de modo específico o contexto investigado. O segundo eixo aborda o sofrimento subjetivo de uma professora, bem como os recursos subjetivos mobilizados por docentes frente aos desafios contemporâneos da profissão, considerando a diversidade de trajetórias profissionais ao longo da vida. A pesquisa evidenciou a necessidade de compreender o sofrimento docente como um fenômeno relacional, histórico e socialmente situado, ressaltando a importância de investir na construção de espaços dialógicos de qualidade, no fortalecimento das instâncias coletivas e no reconhecimento da docência como uma profissão central para a vida social.