A formação de sujeitos no Novo Ensino Médio: um estudo crítico sobre o Projeto de Vida no PNLD 2021
Novo Ensino Médio; Projeto de Vida; Dispositivo de Racialidade; Unidimensionalidade; Teoria Crítica.
A presente pesquisa investiga a formação almejada pelo Novo Ensino Médio (NEM), com foco no componente curricular Projeto de Vida, com o objetivo de analisar de que modo a racionalidade neoliberal se manifesta no modelo educacional vigente e busca conformar as/os estudantes à sua lógica. Esse componente foi escolhido por representar duas dimensões basilares da reforma: (a) como um dos pilares do NEM, evidente desde a Base Nacional Comum Curricular (BNCC); e (b) como disciplina obrigatória no currículo. A hipótese origina-se do conceito de unidimensionalidade formulado por Herbert Marcuse, para ponderar se, e como, o Projeto de Vida atua na conformação ideológica dos sujeitos, ao suprimir suas múltiplas dimensões e subordiná-las aos interesses do mercado, especialmente por meio da razão instrumental conceituada por Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. A técnica de pesquisa adotada é a análise de conteúdo, tendo como corpus empírico os livros didáticos do PNLD 2021. Para auxiliar no montante de dados, recorri ao RStudio que possibilitou a plotagem de resultados mais panorâmicos acerca do campo semântico mobilizado no conteúdo das obras. A dissertação também articula a unidimensionalidade enquanto “nova razão do mundo”, conforme exposta por Christian Laval e Pierre Dardot em suas críticas ao neoliberalismo, estabelecendo conexões entre a racionalidade da sociedade industrial avançada e a lógica neoliberal contemporânea. O referencial teórico contempla, ainda, as contribuições de Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, que tensionam as relações entre educação, cidadania, trabalho, desigualdade e racialização no contexto brasileiro, sobretudo a partir dos conceitos de dispositivo de racialidade, epistemicídio, da neurose cultural brasileira e da crítica ao mito da democracia racial. A análise, em última instância, apresenta e problematiza as três esferas formativas que estruturam o componente curricular, evidenciando como léxicos historicamente associados à teoria social crítica são ressignificados de modo instrumental, meritocrático e individualizante, esvaziando seus sentidos históricos, políticos e sociais, ao mesmo tempo em que reforçam subjetividades alinhadas ao mercado e negligenciam a reflexão acerca das desigualdades estruturais.