Diakanga Kalunga: Código, Transbordo e Tradição no Candomblé Angola da Bahia.
Candomblé Angola; Afrocentricidade; Codificação; Transbordo; Nganga.
Este trabalho se aprofunda na ontologia e nas sociabilidades negras do Candomblé Angola na diáspora brasileira, a partir da experiência e dos códigos de uma comunidade ligada à Família Tumba Junsara. Nossa tese central afirma que a codificação (kangar) e o transbordo são os elementos vivos que impulsionam e mantêm a tradição centro-africana em movimento contínuo. A codificação é o ato de organizar os saberes, enquanto o transbordo é a capacidade da comunidade de acomodar novas vivências sem perder a essência ancestral. A pesquisa se fundamenta na Sociologia das Relações Raciais e na Afrocentricidade, recusando lentes eurocêntricas para a compreensão do mundo. Utilizamos a autoetnografia, a observação participante e os diálogos com os mais velhos como ferramentas metodológicas. A análise crítica do código se dá em múltiplas frentes: na história da milonga (a mistura cultural), na resistência ao racismo religioso e ao nagocentrismo, e no retorno às filosofias Bantu de Fu-Kiau. Argumentamos que o Candomblé é um verbo em ação, superando o aprisionamento da tradição como um mero substantivo inerte. Por fim, desvendamos o papel do Nganga (o especialista) como agente de recodificação em três estudos de caso, envolvendo os Jinkisi Nzila, Nkosi e Tempo. Os casos mostram como os terreiros são territórios de sociabilidade negra, onde a ética da senhoridade (Telama Lwimbanganga) permite que a Ontologia Angoleira se afirme e se reorganize, garantindo sua continuidade frente às investidas do mundo colonial.