A prova de reconhecimento de pessoas e seus (im)pactos raciais no processo penal: análise empírica de processos criminais de roubo na cidade de Salvador (2021–2022)
corpo negro; reconhecimento de pessoas; racismo institucional; processo penal; encarceramento.
A presente tese investiga os impactos raciais da prova de reconhecimento de pessoas no processo penal, a partir da análise de processos criminais de roubo na cidade de Salvador, correspondentes ao período de 2021 e 2022. A pesquisa, desenvolvida sob uma perspectiva teórica racialmente crítica e inserida no campo do Direito e Relações Raciais, adota uma metodologia composta, de caráter quantitativo e qualitativo, articulando análise estatística e documental para identificar como diversas práticas ilegais de reconhecimento de pessoas contribuem, substancialmente, para a injusta condenação de pessoas negras. Foram examinados 308 processos criminais, com o objetivo de identificar o modo como o reconhecimento de pessoas é realizado nas fases pré-processual e processual, bem como suas repercussões na persecução penal. Os resultados revelam a persistência de práticas ilegais e racialmente seletivas, nas quais a negritude é colocada como um corpo “hiperdisponível” para legitimar a atuação da justiça criminal em defesa da sociedade. A análise empírica demonstra que o sistema de justiça criminal, sob a aparência de neutralidade, reproduz pactos institucionais da branquitude que resultam no encarceramento em massa da população negra. Conclui-se que a prova de reconhecimento de pessoas, longe de ser um mecanismo jurídico e técnico para a identificação da autoria delitiva, constitui expressão do racismo institucional e (neo)colonial que marca o processo penal brasileiro, evidenciando a necessidade de reconfiguração epistemológica e normativa dessa prova a partir de uma perspectiva antirracista.