Impacto da Introdução de CBDC nas Demonstrações Financeiras do Banco Central do Brasil
Moedas Digitais. CBDC. Drex. Contabilidade. Banco Central.
Pagamentos digitais e tokenização têm levado bancos centrais a testar novas formas de dinheiro
público. Este estudo investiga, sob o ângulo contábil, como a introdução de uma CBDC
varejista, tratada como passivo direto e não remunerado do Banco Central, poderia repercutir
nas demonstrações financeiras do Banco Central do Brasil (BCB). O trabalho adapta ao
contexto brasileiro o modelo de Gust et al. (2023) e realiza simulações, considerando diferentes
momentos de adoção – 2015 a 2024 - para diferentes níveis de adoção, combinando duas
respostas operacionais, aceitar a redução de reservas bancárias ou recompor liquidez por meio
de compras de títulos públicos. As simulações revelaram que os efeitos variam conforme a
estratégia de acomodação. Sem recomposição, predomina a mudança na composição do
passivo, com redução de reservas bancárias. Com recomposição, o balanço se expande por meio
do aumento da carteira de títulos, com efeitos sobre senhoriagem e resultado. Em termos de
ordem de grandeza, no período simulado, o estoque de CBDC variou de cerca de R$ 48 bilhões
a R$ 940 bilhões, equivalente a 0,78% a 8,01% do PIB. A variação anual estimada do resultado
ficou entre R$ 1,2 bilhão e R$ 31,0 bilhões e, em relação ao resultado efetivo, correspondeu,
em média, a 13,45% nos anos em que o resultado efetivo foi positivo e a −33,35% nos anos em
que o resultado efetivo foi negativo. Para complementar esse exercício de simulação, foi
implementada uma etapa qualitativa para cotejar as premissas consideradas nos cenários de
adoção de uma CBDC com o desenho do Projeto Drex, desenvolvido pelo BCB. Essa etapa,
baseada em documentos e entrevista com um dos responsáveis pelo projeto, indica que o
desenho atual tokeniza depósitos e ativos, sem criar um passivo varejista do Banco Central, de
modo que os impactos estimados não representam projeção do Drex. O estudo contribui ao
aproximar contabilidade e desenho operacional de CBDC, mostrando que as escolhas de
implementação afetam a classificação e a composição do balanço do Banco Central e podem
incidir sobre a formação de juros no mercado bancário. No arcabouço analisado, se a migração
de depósitos para CBDC não vier acompanhada de recomposição de reservas, a redução do
colchão de liquidez pode pressionar as taxas de financiamento interbancário e ampliar o
diferencial entre juros do mercado de crédito atacado e a remuneração das reservas. Em sentido
oposto, a recomposição de reservas por compras de títulos preserva a liquidez e reduz a pressão
sobre as taxas de curto prazo. O ajuste passa a ocorrer no tamanho e na composição do ativo do
Banco Central, com implicações para risco e resultado.